Quinta-feira, Novembro 26, 2009

estou na Gota d'água...


Já lhe dei meu corpo
Minha alegria

Já estanquei meu sangue
Quando fervia

Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta

Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa

Por favor...

Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa

E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d'água...

Terça-feira, Novembro 24, 2009

O DIABO, O EREMITA, A SACERDOTISA

Passado, Presente, Futuro

Sábado, Novembro 21, 2009

Não, você É eternamente responsável por aquilo que cativas!





Terça-feira, Novembro 17, 2009

Um texto que eu adorei. =]
Tomei ((emprestado)) do blog de Letícia Ribeiro.

semfoco semnexo semjeito semfusão
seugosto seusexo seupeito seutesão
souescrotosoucomplexosoudeleitesoudiversão
se sim, se deite. se controle, se não.

Caco.

Complexo.

Tudo azul


Logo que chegou nada se via, nada se percebia, era tudo claro, azul escuro e cinza

Então tudo o que poderia ter ficado mais claro ficou mudado

Transformado em qualquer coisa tão diferente que nem sabia de onde era, pra que servia e pra onde ia

Isso foi mudando com o tempo, e tudo o que parecia não claro e difuso foi mudando, ficando mais claro, menos turvo

Cadê aquela bolinha azul que outrora costumava quicar pelas escadarias que dava nas águas?

Ia quicando ia caindo e ninguém se atreveria a dizer que ela, a menina não poderia brincar ali

Assim foi a menina que brincou com a bola onde antes era tudo claro, tudo azul, tudo turvo, tudo nu.

Quarta-feira, Novembro 11, 2009

"Considero-me uma prostituta das palavras
Por favor, pague-me para escrever"
Em conversa com um amigo, ele me disse que meus olhos revelam muito de mim.

Janelas da Alma
São espelhos d'água escura
São do Paraguaçu, de águas turvas, porém calmas
Assim como não se vê ao fundo do rio
Não se pode ver minha alma clara
Minha alma é clara
Meus olhos revelam o que está no fundo do rio
Eu sou um rio
Ah! Como eu gostaria de desaguar-me em você
De liquificar-me pelo seu corpo
De molhar-me em você e de afogar-te
Queria poder tirar todo o seu fôlego com minhas águas
Quase matar-te afogado em mim
Talvez assim eu possa ter controle sobre você
E não precisarei mais turbilhar dentro de mim mesma minhas aguas turvas


Sábado, Outubro 10, 2009

Flashback

Hoje depois de tanto tempo, eu sonhei com você. Ok, não tem tanto tempo assim, mas enfim, você veio até mim de uma forma indireta, ou da forma mais estranha que pode nos ligar. Um filho.

Era uma roda, haviam rostos conhecidos, estávamos no jardim de minha casa. Um grupo estava ali reunido para falar de um assunto trivial corriqueiro: gravidez não planejada. Mai tinha um filho. Um filho seu. Era uma menina, linda, seu nome era Clara.

Ela teve um filho seu. Fiquei olhando aquela criança e imaginando quanta coragem ela teve. Um filho.

Clara, minha clara, clara, claridade,luz acordei.

Terça-feira, Setembro 29, 2009


O verdadeiro adeus III


Partiu de uma dúvida cruel. Talvez de um devaneio neurótico mas o suficiente pra chamá-la à terra. Foi quase tácito, silencioso e cheio de brechas duras.
Um resultado. Um teste. Uma sentença.
Eu apenas queria que você me devolvesse o que você me levou. Não são os filmes, é algo mais sutil, algo que eu jamais pensei que você pudesse ter tido acesso, algo que nem mesmo eu imaginei que havia lhe dado. Você levou sem que eu percebesse.
Foi um pedaço de mim. Foi uma metade de mim.
Você levou sorrateiramente um pedaço da minha alegria, da minha paz, do meu sorriso, da minha calma, da minha tranqüilidade, da minha inocência, da minha meninice, do meu olhar, olhar de criança diante do mundo, da minha felicidade.
Você deixou deserto, tristeza, vazio, não porque antes você ocupasse grandes espaços, mas porque você levou de mim um pedaço.
Apenas gostaria que você devolvesse.

(...)

Esperei que você viesse até mim me devolver tudo aquilo que você me levou, mas você simplesmente não veio. Percebo agora que você roubou, e que ficará com você esse pedaço de mim. Grande, que eu terei que aprender a seguir em frente sem ele. Você não vai me devolver, e isso dói, dói muito. Não é você que eu quero, mas o que você roubou de mim.

“Havia tanto pra lhe mostrar

...


Mas olhe agora o estrago em que está
Destruição é reflexo do humano
Atos, destrutivos novas vítimas no divã”

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Um presente pra você/ O homem da bicicleta azul

Tudo tinha começado dois anos antes, apesar de ele nem imaginar que ela já o observava de longa data. Data marcada inclusive, ou quase – alguma entre 15 e 20 de novembro. Era festa. Festa de Nossa Senhora D’Ajuda. O cenário? A cidade de Cachoeira, Bahia.
Estava ela no auge de suas peripécias de meninice com uma colega, correndo pelas ruas da cidade, atrás do cortejo profano, quando, o vê. Não era a primeira vez que o via, mas naquele dia estava com coragem de dar um passo adiante no que antes não passavam de olhares fixos e penetrantes.
Incentivada pela colega que era tão ou mais maluca que ela, resolvem de supetão perseguir o tal cara. Ele estava de bicicleta amarela, e um gorro vermelho, que contrastava com sua pele clara e aqueles belos olhos verdes. Era um dos poucos senão o único cara gato daquela merda de cidade chata. Pelo menos era assim que ela enxergava Cachoeira logo que chegou. A multidão estava muito agitada e quase coesa, naquelas ruas e becos apertados era difícil correr, teriam que procurar um caminho alternativo para enfim, alcançarem seu alvo.
Tentaram sem muito sucesso. Quando a fanfarra passou, quase perderam ele de vista. Tiveram que se contentar com as bichas e transformistas coloridas e muito animadinhas, loucas para fazerem a pose do próximo flash. Mas, quando tudo acalmou mais um pouco e as pessoas se dispersaram, elas o viram novamente. Ele estava ali, lindo, pronto para ser fotografado, de perfil, distraidamente montado em sua bicicleta. Alya, a mais corajosa, - ou mais cara-de-pau - aproximou-se com a câmera e pediu que Lai a menos discreta das duas – diga-se de passagem - fizesse uma pose legal pra ser fotografada. Não deu muito certo. Ele olhou pra trás, e Lai começou a rir, então, Alya para não perder a pose começou a agir debilmente como se fossem estrangeiras – o que soou como abobalhadas – e comentou sobre um colar bonito. Era o colar dele, que estava virado ao contrário, de modo que o enorme pingente de madeira estava dando pra quem estivesse de frente para as costas dele.
Ele não deu a mínima. Não demorou muito e aproveitando o menor fluxo de pessoas, ele partiu montado em sua bicicleta, deixando para trás suspiros e uma foto de perfil.

Passaram-se quase dois anos, muitas coisas aconteceram, e Lai percorreu pelo menos 6 letras do alfabeto, até reencontrar o gato de novo. Ele não tinha nome, era apenas o gato. Oportunamente, ficou sabendo seu nome. Nome bonito, de imperador romano. Mas o que dava a magia, a energia pulsante nele era o apelido. Era um diminutivo que deixava a coisa clara, sabe aqueles caras com nomes fortes, completos que diminuem no apelido pra enfim revelar suas verdadeiras personalidades? Algo tipo Rafael, Rafinha; Pedro, Pedrinho e por aí vai. Ca-fa-jes-te. Mulherengo. Homem que é homem usa o nome, e só isso, não se utiliza desses apelidinhos que infantilizam seus verdadeiros “eus” pra fazer com que todos tornem-se mais complacentes.
Enfim, Lia só o via muito de vez em quando andando de bicicleta pelas ruas da cidade, e sempre que o via, era inevitável aquele sorriso e o começo da fabricação de uma fantasia ousada. Ela sorria sozinha e logo imaginava como seria ficar com ele. “Certamente bom!” pensava. E ia seguindo seu caminho delineando sua fantasia erótica, até ser interrompida por um pensamento fortuito e mais importante.
Seguia sua vidinha e já tinha ouvido inúmeras histórias em tom de recomendação para nem se iludir ou se aproximar muito daquele rapaz, que era “um conquistador nato”. E nem se iludia mais em ficar com ele. Até por que não seria mérito algum, era fácil fácil.
Mas cidade pequena é uma coisa séria. Cedo ou tarde eles iriam ser colocados frente a frente novamente, mas dessa vez não ficariam apenas em olhares penetrantes, iriam conversar. Dito e certo. Ela nem precisaria fazer a oportunidade ela se daria naturalmente. Eis que naquela ocasião estava muito aperriada atrás de uma casa nova para morar com sua amiga Iana. Ela morava em uma casa azul de 1° andar muito bem localizada, no centro da cidade, apesar do incômodo de ter que subir todos os dias aquela enorme ladeira, era uma boa casa. O único problema era a dona, uma velha chata com nome de aquarela. Era óbvio: elas tinham que se mudar logo, ou teriam que agüentar aquela criatura mais um mês.
Correram quase a cidade toda, estavam bem desanimadas quando alguém indicou um tão de Marco Antônio. O problema de cidade pequena é que quase ninguém é conhecido pelo próprio nome e sim por apelidos. Elas até chegaram bem perto da casa do tal Marco Antônio, mas voltaram logo, porque ninguém sabia de quem se tratava.
Lia já estava impaciente, pois não agüentaria mais um mês as chateações daquela velha chata.
Numa noite, resolveram procurar o tal do Marco Antônio novamente. Andaram até próximo da ponte Dom Pedro II, e chegaram numa praça grande, em frente a um Centro Espírita. Infomaram mais ou menos onde era a casa de Marco Antônio e já animadas com – finalmente – terem encontrado o destino correto bateram à porta. Infelizmente lhes disseram que ele não estava que voltassem no dia seguinte. No outro dia depois da última aula, lá foram Lia e Iana atrás de quem sabe a liberdade da chata-de-nome-de-aquarela. Chegaram já de noite na casa dele. A janela estava aberta. O casarão era típico das casas de Cachoeira: grande, com um longo corredor, que dava nos fundos, muito provavelmente numa grande sala.
Quando olhou furtivamente pela abertura da janela Lia tomou um grande susto. Viu um homem de cueca verde musgo e enormes cabelos cacheados. Seus olhares se encontraram, ele também a vira. Ela tomou um susto arregalou os olhos e disse a Iana:
- Tinha um cara de cueca nos fundos e ele me viu.
- O quê? Ele estava nu?
- Não de cueca!
O diálogo não se estendeu muito porque o tal cara de cuecas apareceu pra atendê-las.
Era ele. Galanteador como o esperado, pediu que sua irmã mais nova as acompanhasse até a casa a ser alugada. Lia tentava se controlar,oscilava em altos e baixos, ora derretida e louca pra dar aquele sorriso besta de quem fica nervosa quando está diante de uma presença tão, presente ora controlava-se e fazia caras sérias e dava respostas mais sérias ainda.
Enfim, foram as duas atrás da menina. Que por sinal era bem parecida com ele. Linda.
Não gostaram da casa, tinha um quintal grande e cheio de mato, elas terias que cortar grama, e fazer esses serviços de jardinagem que não estavam nem a fim e nem conheciam um agrônomo animado o suficiente pra fazer o serviço por elas e plantar algo ali atrás que realmente valesse à pena.
Agradeceram e foram pra casa desanimadas.

Depois disso, nunca mais trocara uma palavra sequer com aquele príncipe de olhos verdes. Lia já estava lá pela última letra das 6 que percorrera no alfabeto desde seu primeiro encontro com o gato quando num dia especialmente quente em Cachoeira, ela se dirigia à 25 de junho pra almoçar – já que era um pequeno desastre na cozinha – quando viu alguns colegas de faculdade “rachando” deprimentemente uma latinha de cerveja. Deprimente mesmo, porque uma lata de cerveja dividida para 3 pessoas era quase triste. Convidada a sentar-se ela se ofereceu a pagar a próxima gelada, e dessa vez seria uma garrafa de cerveja decente.
Bebericaram e conversaram descontraidamente sobre aluguéis e a faculdade, quando ele apareceu de bicicleta. Cumprimentou os meninos e sentou-se, dizendo que a próxima seria por conta dele. Falou sobre mulheres, sobre bebidas e deu em cima de Lia mais sutilmente que o normal. Pagou sua parte da conta e disse ao sair:
- Posso passar na sua casa hoje?
- Pode. - ela disse.
Para ela aquela autorização que dava a ele, era quase um desafio contra ela mesma. Era como se quisesse dizer “iai se ele for? Você vai fazer o quê? .
Naquele dia ela voltou pra casa com uma expectativa dentro de si, como quem espera uma briga. Como se a qualquer momento seu inimigo fosse lhe bater à porta e finalmente resolver suas diferenças. Ele demorou. Lia estava extremamente ansiosa e irritadinha, pois se tinha uma coisa que ela detestava era esperar, e ele já tinha passado dos limites pra quem desejava fazer mais uma conquista.
Até parece que ninguém sabia inclusive a própria, o que aconteceria quando ele aparecesse na soleira de sua porta. Mas ela gostava de manipular em sua cabeça o improvável. Eram 3 da tarde. Ele a fez esperar 2 horas e meia. Mas quando ele chegou, ela não estava de cara feia. Claro que não. Estava na cozinha conversando animadamente com uma amiga, Anna, quando esta ouviu ele chamar à porta.
Anna atendeu, e disse pra que ele entrasse. Ele se dirigiu pelo longo corredor da casa de Lia e sentou-se numa cadeira. Lia havia corrido pro quarto pra arrumar melhor a própria aparência pois não queria que ele a visse feia.
Saiu do quarto e cumprimentou-o. Dirigiu-se ao banheiro e tomou um longo banho. Era pra ele, tudo pra ele. Aquele ritual habitual tornara-se erótico, e ela estava curtindo cada momento disso tudo.

Já estavam no chão. Seus corpos se embolavam, se confundiam um no outro como dois cachorros no cio. A erotização daquela cena,era ainda mais sublime por simplesmente eles estarem totalmente cobertos, de roupa, e não estarem transando. Seus corpos suavam e se esfregavam no chão frio daquele piso antigo.
Paravam. Suas respirações eram ofegantes, olhavam pro teto. E voltavam a se atracar como numa pré-nupcia. Era muito bom, o toque, o cheiro, o beijo e a saliva dos dois completamente misturada e mudando de textura e de gosto quanto mais excitados os dois estavam. O celular dele tocou apenas uma vez. Não deram muita importância. Ela já estava atrasada, ia pro Centro Espírita – agora quem sabe expurgar seus pecados, precisasse mais de um padre católico.
O êxtase era grande, o calor, e a fricção de suas roupas já estava deixando Lia completamente louca, quando finalmente, ela entrou em estado alfa.

A noite havia chegado. Sua outra companheira de casa chegou e instalou-se uma situação um pouco constrangedora. Grasi fora a primeira paixãosinha universitária de Marco – seu nome era o mesmo do pai- e ele ficou bem desconcertado na presença dela, irritando Lia, que numa cena perfeita de comédia, digna de tela grande jogou seus sapatos e sua blusa na cara dele, como se faz quando se expulsam maridos ou amantes de casa.
Riram da situação até que Lia resolveu ir pro seu quarto. Ele a acompanhou.

Próximos Capítulos
O adeus II

“ Há algum tempo, quando me enfrentei e meus sentimentos por ti não me deixaram cega, pois você estava muito próximo e lhe enxerguei tão intensamente como se usasse um microscópio e poro a poro vocÊ estava ali evidente para mim.
Mesmo sabendo as minhas palavras não eram irreais. Sim o que desejava era seu amor solitário. Único, sem desgaste de tê-lo com seu cheiro exalado no corpo de outra, com suas expressões já cansadas e repetidas, com a história que já foi contada e o carinho menos terno de cansaço. Não foi difícil olhar que você era so seu e qualquer ramificação de seus sentimentospor outra era so para te comprovar disso.E o fazia cavar ainda mais esse vazio confortável que lhe faz tão leve sem forças para lhe convencer a pousar, mas só na ficção a fantasia não tem compromisso com a realidade. Você era grande demais para ocupar o que eu desejava eu pequena a procura de um lugar tão quente que nem precisava de ar. Minha angústia é que mesmo sabendo toda sinopse te amo tanto como a mocinha que abdica de tudo para poucos minutos de felicidade antes das luzes se apagarem.
Seja eu”

Texto extraído da Muito, sobre o trabalho de Sophie Calle, por Juliana Moraes

Domingo, Setembro 20, 2009


Eu estou levemente radiante. Feliz. E chorei por isso. Não lagrimas de tristeza, mas lágrimas tão leves quanto podem ser um sopro gentil, uma brisa leve nos rosto que nos arrepia.
Eu falei com ela ao telefone. Foi rápido. Mas, ainda assim foi suficiente para me fazer pensar que talvez possa voltar. Aos poucos. Houve polidez. “está dormindo”, “obrigada” “de nada”. Magoamos mais quem mais amamos.


(...)

O Adeus

Ele viera vê-la novamente com uma desculpa esdrúxula como o usual, fingindo para não se sabe quem o objetivo de mais uma de suas visitas. Dessa vez ela não o estava esperando de sutiã branco com colar longo e mini-saia. Ela estava com as mão úmidas, molhadas, estava lavando os pratos do almoço, quando ouviu sua voz chamar à porta.
Ela veio enxugando as mãos com o pano de prato branco, cabelos amarrados, não tão maliciosamente arrumados, com suas roupas desajustadas habituais que usava para ficar em casa. Abriu a porta. À sua soleira estava ele. Alexandre. De bicicleta e com um sorriso que ela conhecia bem : avassalador. Não deu importância, e convidou-o para entrar, dando às costas logo em seguida. Ele não notou. Pegou sua bicicleta, colocou pra dentro, olhou sua pochete de couro como o habitual, mexeu no celular, guardou-o e fez a pergunta de sempre : “quem está aí?” “ninguém”- ela respondeu- “estou sozinha, mas daqui a pouca Ana Paula chega”.
Ela foi se dirigindo à cozinha, mas ele abraçou-a e tentou beijá-la. Ela desviou o rosto. Ele não entendeu muito bem, e tentou mais uma vez. Ela recusou, então ele disse “vamos logo minha gata, não temos tempo pra isso, dessa vez tem que ser rápido”. Ela não deu importância ao que ele disse, mas percebeu que era completamente inútil tentar prolongar aquela conversa, então foi direto ao assunto.
- Alexandre, não dá mais.
Ela olhava pra ele com um ar meio desapontado, como se sentisse muito por dizer essas palavras, mas com uma firmeza na voz quase inabalável.
- Como assim não dá mais, do que você está falando?
Ele perguntou porque lhe pareceu retórico. Na verdade não estava entendendo muito o teor de sua própria pergunta. Ela continua a olhar para baixo, apesar de sua voz firma e decidida.
- Eu pensei em lhe ser totalmente franca e ir completamente de encontro à sensatez e lhe dizer a verdade...
Ele a interrompe bruscamente como sempre fazia quando ela tentava conversar e diz;
- Vamos parar com isso, daqui a pouco suas amigas chegam, eu não tenho tempo pra isso, daqui a meia hora terei que ir embora.
Meio irritada, meio impaciente, pois já não agüentava mais aquela situação de simplesmente não ser ouvida, ela o interrompe e prossegue;
- Sei também que muito provavelmente você não vai entender o que eu quero dizer, mesmo que eu seja tão clara quanto vou ser, e que muito provavelmente você fará uma interpretação equivocada, do que eu lhe disser...
- Você pode por favor ir direto ao assunto?
Era uma verdadeira batalha. Ele querendo não ouvir, ela desesperada para ser falar. Ela entendia que sua prolixidade dificultava um pouco as coisas e tornava tudo mais chato. Era uma mania sua, sempre tentava fazer com que suas falas parecessem escritas num belo roteiro de cinema. Quase nunca dava certo. Na verdade, nunca deu.
- Não posso mais ficar com você.
- Por que?
- Por um motivo muito simples, você nunca me dará aquilo que hoje, eu quero.
Ela lhe falou olhando-o firmemente em seus belos e pequenos olhos verdes, aqueles que outrora a faziam fraquejar e ceder, quase tanto quanto o sorriso de dentes pequenos e avassaladores.
Agora, ele parecia realmente confuso, e começava a entender que aquilo era sério, e não era mais uma de suas patéticas ameaças frágeis, que não passavam de mero charminho para tornar a coisa mais interessante.
Sedutor como sempre, ele tenta persuadi-la com seu velho discurso;
- Do que você está falando minha gata, deixa disso, deixe eu lhe dar o melhor que eu posso lhe dar...
Ele tenta agarrá-la novamente e ela se desvencilha controlando ao máximo a sua paciência já esgotada. Ele tinha 1,80m, era forte de braços grandes, e faziam um casal peculiarmente engraçado, ela, era tão baixinha diante dele, que quando ele abraçava-a ela praticamente sumia entre seus músculos e cabelos rastafári rigidamente presos.
Já impaciente, ele passa as mãos sobre sua testa agora levemente suada, e diz;
- O que você quer de mim então? Namorinho? Mãozinha dada no meio da praça? Tomar sorvetinho comigo e me chamar de seu namoradinho?
Ela já havia ouvido isso antes, na verdade, na primeira vez que ficaram,- na sua casa - numa tarde de terça-feira, ele queria chegar às “belas praias ensolaradas de Miami Beach, sem sequer passar pelo frio da NY”. Essa lembrança lhe ocorreu novamente à mente, mas como um flash, dissipou-se rapidamente, e ela prosseguiu;
- Acertou. Em parte. Quero um “namoradinho” se é assim que você quer denominar, mas ele, não seria você!
Era engraçado como ela, que sempre deixou-se levar pelo id freudiano, poderia estar tão prudentemente terminando um relacionamento que mal começara. Alexandre continuava a insistir, nem ele já sabia a razão dessa vez, até porquê, mulheres para ele sempre foram matéria passada e escolada, mestre phd, nunca tive dificuldade de tê-las, conquistá-las.
- Ótimo! Eu não sou ciumento mesmo!
Mais uma vez, ele tentava inutilmente abafar e desviar o foco do que era realmente importante. Ele nunca a ouvia. Nunca. Não queria. Simplesmente não precisava. À essa altura, Ana Maria estava quase furiosa, mesmo que sua voz aparentasse apenas leve irritação;
- Você não entende mesmo né? Você sequer escuta o que eu digo!
- Escuto sim, mas esse papo me enche o saco.
Finalmente, as verdades de Ana Maria e Alexandre estavam sendo cuspidas nuas e cruas, como jamais haviam sido ditas antes. Talvez porque dessa vez, deixaram seus sentimentos de insatisfação de um para com o outro transparecerem de uma forma menos turva, menos nublada como o habitual de suas alfinetadas com frases indiretas.
À uma altura dessas, Ana já estava levemente exaltada. Ela não era bem do tipo que controlava as emoções, mas neste caso sabia que deveria usar do máximo de seu traquejo e inteligência emocional, para simplesmente não “chutar a pedra”, ao invés de inteligentemente, contorná-la.
- Justamente! É disso que eu estou falando. Mesmo sem compromisso, mesmo sem nos dever satisfação, esse tipo de relação é desgastante e eu não quero isso pra mim. Estou perdendo meu tempo, minha energia, voltada pra uma coisa que eu sei que nunca evoluirá, enquanto poderia estar serena, tranqüila focando em outras coisas. Com você, minha energia que deveria ir pra alguém que realmente valha à pena, se esvai, por que estou gastando-a a toa.
- Você não precisa gastá-la só comigo. Já disse, não sou ciumento, não ligo de dividir, afinal de contas qual é o seu problema? Se você não me quer como namorado e nem eu a você, por quê simplesmente não podemos ficar como estamos?
Era uma batalha injusta, desigual e cruel. Ela já não tinha mais forças para suportar aquilo. Era como se gritasse pra uma caverna profunda, e tudo que ouvia em resposta, era a resposta do eco. Ele, não enxergava ela. Era como se estivesse ali, falando para uma imagem de TV sem som.
Num esforço final, já vencida ela diz num tom quase triste;
- Não dá. Não quero mais. Sinto muito. Você é um cara legal, mas não quero mais esse tipo de relação. Agora, eu quero construir algo com alguém, com você não vou construir nada. Sinto muito.
Ana Maria suspirou. Olhou dentro dos olhos vazios de Alexandre, e tentou continuar;
- Mas ainda podemos...
Sem sucesso,pois foi interrompida bruscamente. Num tom seco, Alexandre diz;
- Me poupe dessa frase ridícula!
Então ficaram ali, os dois, parados, no início do longo corredor da casa de Ana Maria, ela, ainda com o pano de prato úmido nas mão, já não tinha mais nada a dizer, ele, agitado, meio perdido em seus movimentos, abriu e fechou a pochete duas vezes, sem saber ao certo o que buscava, pegou então seu celular, cutucou algo em suas teclas que fez iluminar seu rosto com uma luz azul, mas em seguida guardou-o novamente no bolso dianteiro. O silêncio meio cortante de uma situação constrangedora estava ali instalado. Gritava mais do que ele gostaria de dizer, menos do que ela gostaria ou até mesmo mereceria ouvir. Ele parecia irritado. Não restando mais nada a ser feito ou dito, ele tomou a iniciativa de sair daquela cena estática.
Como um cupido que fora ferido por sua própria flecha de orgulho, ele abre a porta, monta em sua bicicleta, saindo sem olhar pra trás. Ana Maria continua ali, em pé, plantada, com um pano de prato úmido nas mãos se sentindo um pouco embrulhada mas com a certeza, de que dessa vez, ela fora ouvida.
Fim.

Domingo, Setembro 06, 2009

A sensação do 'se'
Meu problema é o 'se'. mas não aquele 'se' da dúvida do que poderia ter sido, e sim do que foi.Se eu parasse nas 3 letrinhas que podem salvar uma vida, ou que simplesmente poderia salvo guardar minhas estruturas psicológicas eu já seria muitíssimo melhor: o não.
Meu problema é o 'se'.Eu costumo fazer as coisas e muitas vezes levar algumas adiante por que penso ' mas e se eu não fizer, o que poderia não ter acontecido'? Eu faço primeiro, depois eu penso e analiso. Uma amiga certa vez em mesa de bar [as conversas de mesa de bar são as melhores, a verdade sai tão diluídas, quentes, fermentadas ou destiladas quanto a bebida que esvai do copo] me disse que eu sou mais prática que teórica. E é verdade. Vivo como se eu estivesse prestes a responder aquela pergunta que vale 1 milhão de reias e meu tempo está acabando.Por isso eu faço. Faço tudo. Penso depois.Quase nunca me arrependo. Porque mesmo não tendo teorizado tanto sobre a minha ação eu de alguma forma pude ter as duas escolhas primordiais: fazer ou não fazer. E escolhi. Logo não fico me remoendo no que já é passado, sagrado e sacramentado.
O que eu não suportaria é a sensação do '(o) que poderia ter sido se'.
Mas pensando bem, acho que às vezes é melhor nem saber, e deixar de fazer mesmo. As consequencias de uma insistência obstinada pode ser desastrosa.

Sabedoria não é dizer 'sim' ou 'não', é simplesmente deixar de querer antecipar o imponderável, aquilo que não se controla.