Um presente pra você/ O homem da bicicleta azulTudo tinha começado dois anos antes, apesar de ele nem imaginar que ela já o observava de longa data. Data marcada inclusive, ou quase – alguma entre 15 e 20 de novembro. Era festa. Festa de Nossa Senhora D’Ajuda. O cenário? A cidade de Cachoeira, Bahia.
Estava ela no auge de suas peripécias de meninice com uma colega, correndo pelas ruas da cidade, atrás do cortejo profano, quando, o vê. Não era a primeira vez que o via, mas naquele dia estava com coragem de dar um passo adiante no que antes não passavam de olhares fixos e penetrantes.
Incentivada pela colega que era tão ou mais maluca que ela, resolvem de supetão perseguir o tal cara. Ele estava de bicicleta amarela, e um gorro vermelho, que contrastava com sua pele clara e aqueles belos olhos verdes. Era um dos poucos senão o único cara gato daquela merda de cidade chata. Pelo menos era assim que ela enxergava Cachoeira logo que chegou. A multidão estava muito agitada e quase coesa, naquelas ruas e becos apertados era difícil correr, teriam que procurar um caminho alternativo para enfim, alcançarem seu alvo.
Tentaram sem muito sucesso. Quando a fanfarra passou, quase perderam ele de vista. Tiveram que se contentar com as bichas e transformistas coloridas e muito animadinhas, loucas para fazerem a pose do próximo flash. Mas, quando tudo acalmou mais um pouco e as pessoas se dispersaram, elas o viram novamente. Ele estava ali, lindo, pronto para ser fotografado, de perfil, distraidamente montado em sua bicicleta. Alya, a mais corajosa, - ou mais cara-de-pau - aproximou-se com a câmera e pediu que Lai a menos discreta das duas – diga-se de passagem - fizesse uma pose legal pra ser fotografada. Não deu muito certo. Ele olhou pra trás, e Lai começou a rir, então, Alya para não perder a pose começou a agir debilmente como se fossem estrangeiras – o que soou como abobalhadas – e comentou sobre um colar bonito. Era o colar dele, que estava virado ao contrário, de modo que o enorme pingente de madeira estava dando pra quem estivesse de frente para as costas dele.
Ele não deu a mínima. Não demorou muito e aproveitando o menor fluxo de pessoas, ele partiu montado em sua bicicleta, deixando para trás suspiros e uma foto de perfil.
Passaram-se quase dois anos, muitas coisas aconteceram, e Lai percorreu pelo menos 6 letras do alfabeto, até reencontrar o gato de novo. Ele não tinha nome, era apenas o gato. Oportunamente, ficou sabendo seu nome. Nome bonito, de imperador romano. Mas o que dava a magia, a energia pulsante nele era o apelido. Era um diminutivo que deixava a coisa clara, sabe aqueles caras com nomes fortes, completos que diminuem no apelido pra enfim revelar suas verdadeiras personalidades? Algo tipo Rafael, Rafinha; Pedro, Pedrinho e por aí vai. Ca-fa-jes-te. Mulherengo. Homem que é homem usa o nome, e só isso, não se utiliza desses apelidinhos que infantilizam seus verdadeiros “eus” pra fazer com que todos tornem-se mais complacentes.
Enfim, Lia só o via muito de vez em quando andando de bicicleta pelas ruas da cidade, e sempre que o via, era inevitável aquele sorriso e o começo da fabricação de uma fantasia ousada. Ela sorria sozinha e logo imaginava como seria ficar com ele. “Certamente bom!” pensava. E ia seguindo seu caminho delineando sua fantasia erótica, até ser interrompida por um pensamento fortuito e mais importante.
Seguia sua vidinha e já tinha ouvido inúmeras histórias em tom de recomendação para nem se iludir ou se aproximar muito daquele rapaz, que era “um conquistador nato”. E nem se iludia mais em ficar com ele. Até por que não seria mérito algum, era fácil fácil.
Mas cidade pequena é uma coisa séria. Cedo ou tarde eles iriam ser colocados frente a frente novamente, mas dessa vez não ficariam apenas em olhares penetrantes, iriam conversar. Dito e certo. Ela nem precisaria fazer a oportunidade ela se daria naturalmente. Eis que naquela ocasião estava muito aperriada atrás de uma casa nova para morar com sua amiga Iana. Ela morava em uma casa azul de 1° andar muito bem localizada, no centro da cidade, apesar do incômodo de ter que subir todos os dias aquela enorme ladeira, era uma boa casa. O único problema era a dona, uma velha chata com nome de aquarela. Era óbvio: elas tinham que se mudar logo, ou teriam que agüentar aquela criatura mais um mês.
Correram quase a cidade toda, estavam bem desanimadas quando alguém indicou um tão de Marco Antônio. O problema de cidade pequena é que quase ninguém é conhecido pelo próprio nome e sim por apelidos. Elas até chegaram bem perto da casa do tal Marco Antônio, mas voltaram logo, porque ninguém sabia de quem se tratava.
Lia já estava impaciente, pois não agüentaria mais um mês as chateações daquela velha chata.
Numa noite, resolveram procurar o tal do Marco Antônio novamente. Andaram até próximo da ponte Dom Pedro II, e chegaram numa praça grande, em frente a um Centro Espírita. Infomaram mais ou menos onde era a casa de Marco Antônio e já animadas com – finalmente – terem encontrado o destino correto bateram à porta. Infelizmente lhes disseram que ele não estava que voltassem no dia seguinte. No outro dia depois da última aula, lá foram Lia e Iana atrás de quem sabe a liberdade da chata-de-nome-de-aquarela. Chegaram já de noite na casa dele. A janela estava aberta. O casarão era típico das casas de Cachoeira: grande, com um longo corredor, que dava nos fundos, muito provavelmente numa grande sala.
Quando olhou furtivamente pela abertura da janela Lia tomou um grande susto. Viu um homem de cueca verde musgo e enormes cabelos cacheados. Seus olhares se encontraram, ele também a vira. Ela tomou um susto arregalou os olhos e disse a Iana:
- Tinha um cara de cueca nos fundos e ele me viu.
- O quê? Ele estava nu?
- Não de cueca!
O diálogo não se estendeu muito porque o tal cara de cuecas apareceu pra atendê-las.
Era ele. Galanteador como o esperado, pediu que sua irmã mais nova as acompanhasse até a casa a ser alugada. Lia tentava se controlar,oscilava em altos e baixos, ora derretida e louca pra dar aquele sorriso besta de quem fica nervosa quando está diante de uma presença tão, presente ora controlava-se e fazia caras sérias e dava respostas mais sérias ainda.
Enfim, foram as duas atrás da menina. Que por sinal era bem parecida com ele. Linda.
Não gostaram da casa, tinha um quintal grande e cheio de mato, elas terias que cortar grama, e fazer esses serviços de jardinagem que não estavam nem a fim e nem conheciam um agrônomo animado o suficiente pra fazer o serviço por elas e plantar algo ali atrás que realmente valesse à pena.
Agradeceram e foram pra casa desanimadas.
Depois disso, nunca mais trocara uma palavra sequer com aquele príncipe de olhos verdes. Lia já estava lá pela última letra das 6 que percorrera no alfabeto desde seu primeiro encontro com o gato quando num dia especialmente quente em Cachoeira, ela se dirigia à 25 de junho pra almoçar – já que era um pequeno desastre na cozinha – quando viu alguns colegas de faculdade “rachando” deprimentemente uma latinha de cerveja. Deprimente mesmo, porque uma lata de cerveja dividida para 3 pessoas era quase triste. Convidada a sentar-se ela se ofereceu a pagar a próxima gelada, e dessa vez seria uma garrafa de cerveja decente.
Bebericaram e conversaram descontraidamente sobre aluguéis e a faculdade, quando ele apareceu de bicicleta. Cumprimentou os meninos e sentou-se, dizendo que a próxima seria por conta dele. Falou sobre mulheres, sobre bebidas e deu em cima de Lia mais sutilmente que o normal. Pagou sua parte da conta e disse ao sair:
- Posso passar na sua casa hoje?
- Pode. - ela disse.
Para ela aquela autorização que dava a ele, era quase um desafio contra ela mesma. Era como se quisesse dizer “iai se ele for? Você vai fazer o quê? .
Naquele dia ela voltou pra casa com uma expectativa dentro de si, como quem espera uma briga. Como se a qualquer momento seu inimigo fosse lhe bater à porta e finalmente resolver suas diferenças. Ele demorou. Lia estava extremamente ansiosa e irritadinha, pois se tinha uma coisa que ela detestava era esperar, e ele já tinha passado dos limites pra quem desejava fazer mais uma conquista.
Até parece que ninguém sabia inclusive a própria, o que aconteceria quando ele aparecesse na soleira de sua porta. Mas ela gostava de manipular em sua cabeça o improvável. Eram 3 da tarde. Ele a fez esperar 2 horas e meia. Mas quando ele chegou, ela não estava de cara feia. Claro que não. Estava na cozinha conversando animadamente com uma amiga, Anna, quando esta ouviu ele chamar à porta.
Anna atendeu, e disse pra que ele entrasse. Ele se dirigiu pelo longo corredor da casa de Lia e sentou-se numa cadeira. Lia havia corrido pro quarto pra arrumar melhor a própria aparência pois não queria que ele a visse feia.
Saiu do quarto e cumprimentou-o. Dirigiu-se ao banheiro e tomou um longo banho. Era pra ele, tudo pra ele. Aquele ritual habitual tornara-se erótico, e ela estava curtindo cada momento disso tudo.
Já estavam no chão. Seus corpos se embolavam, se confundiam um no outro como dois cachorros no cio. A erotização daquela cena,era ainda mais sublime por simplesmente eles estarem totalmente cobertos, de roupa, e não estarem transando. Seus corpos suavam e se esfregavam no chão frio daquele piso antigo.
Paravam. Suas respirações eram ofegantes, olhavam pro teto. E voltavam a se atracar como numa pré-nupcia. Era muito bom, o toque, o cheiro, o beijo e a saliva dos dois completamente misturada e mudando de textura e de gosto quanto mais excitados os dois estavam. O celular dele tocou apenas uma vez. Não deram muita importância. Ela já estava atrasada, ia pro Centro Espírita – agora quem sabe expurgar seus pecados, precisasse mais de um padre católico.
O êxtase era grande, o calor, e a fricção de suas roupas já estava deixando Lia completamente louca, quando finalmente, ela entrou em estado alfa.
A noite havia chegado. Sua outra companheira de casa chegou e instalou-se uma situação um pouco constrangedora. Grasi fora a primeira paixãosinha universitária de Marco – seu nome era o mesmo do pai- e ele ficou bem desconcertado na presença dela, irritando Lia, que numa cena perfeita de comédia, digna de tela grande jogou seus sapatos e sua blusa na cara dele, como se faz quando se expulsam maridos ou amantes de casa.
Riram da situação até que Lia resolveu ir pro seu quarto. Ele a acompanhou.
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